domingo, 14 de outubro de 2012

La fin

Deixo para você como herança a minha amargura, o meu mau humor.
Deixo a você a minha rebeldia sem causa, a minha dor. Porque a causa dos meus irmãos eu pego como minha, como quem procura um motivo para sofrer. Mas se a causa é dos meus irmãos, é minha também.
Deixo então, como lembrança, a minha rebeldia com e sem causa, a minha saudade, a minha culpa.
A culpa de saber que a culpa disso tudo não é de ninguém além de minha. Eu escolhi sofrer, pois apesar de tantos motivos para nos deixar infelizes durante essa vida, é a gente mesmo que escolhe se deixar convencer por eles e ceder à tristeza.
Deixo para você, como herança, meus pêsames, não de quem morre, mas de quem nunca viveu. 
Deixo isso para você como herança, e recomeço a minha vida.

domingo, 7 de outubro de 2012

Eu, Tu, Ela

Ela andava pelas ruas com balançado leve enquanto ouvia blues pelos seus fones de ouvido, mexendo os dedos suavemente como se pudesse tocar algum instrumento e no fundo de sua alma desejando que o resto do mundo pudesse curtir aquele som junto com ela, como se todos que passassem ao seu lado pudessem sentir a vibe de sua melodia. Ela andava pelas ruas olhando para os lados como quem procura um olhar de admiração e procurando também alguém para distribuir o seu mais singelo flerte. Ela arrancava alguns olhares, e quando isso acontecia abaixava timidamente a sua cabeça olhando para os seus pés que andavam quase flutuando naquele caminho rotineiro.

Gabriela

Gabriela tinha um grande amor. Daqueles com endereço, CPF, e telefone fora de área às sextas à noite. Um amor que sabia encantá-la com seus beijos e sorrisos, mas que também a machucava com sua indiferença e insensibilidade. Logo ela, tão artista, tão sensível, apaixonada pela vida e cheia de amor pra dar. Gabriela tinha um amor sofrido, e com data marcada para ir para o estrangeiro e só voltar dali a um ano. 
Um ano? Se com ele aqui ela já sofria a sua ausência, ela ia sofrer ainda mais de longe. O que pode acontecer em um ano?
Gabriela sofreu muito a sua falta. Sentiu falta de sair de casa imaginando esbarrar com ele na rua, mesmo morando em uma cidade com mais de três milhões de habitantes. E sentiu falta das conversas de Domingo à noite ao telefone, quando o número dele funcionava para ela. Sentiu falta de, simplesmente, saber que ele estava por perto, mesmo estando tão distante dela em questão de sentimentos.
Numa manhã de segunda-feira, depois de passar a noite de Domingo chorando e o final de semana inteiro se sentindo sozinha, Gabriela acordou diferente. Com os olhinhos ainda inchados, ela percebeu que sempre esteve sozinha, mesmo com tantas pessoas o tempo inteiro ao seu redor. Mas ao invés de ficar com raiva do mundo e mau dizer os seus sentimentos, Gabriela resolveu pegar todo aquele amor, toda aquela paixão, toda aquela vontade frustrada de ser feliz e distribuir para a vida, para o mundo. Gabriela passou a reparar nas flores que brotavam com a primavera, e decidiu experimentar de novo mel, que sempre fez a sua garganta coçar. Gabriela passou a amar o cheiro de desinfetante de quando o banheiro da faculdade acabava de ser limpo, e sentia prazer em escolher um novo shampoo a cada ida mensal ao supermercado. Passou a apreciar ainda mais o pão de queijo quentinho que saía todas as tardes na lanchonete, e até ganhou um quilo e poucos (vai ver ficou inchada era de tanto amor). Passou a amar a todos, até "a poeira que entra no nariz por causa do clima seco". E quando Gabriela passou a amar a tudo, e a todos, ela passou também a amar a ela mesma. Mesmo assim, Gabriela não era hipócrita e sabia que mesmo se amando muito, ela ainda precisaria de alguém pra dedicar todo aquele amor em especial. Alguém que desse sentido. E ela sabia que aquele amor que foi para o exterior, não poderia ser. Mas ela tinha certeza que ela ia achar um amor. Um amor com endereço, CPF, e telefone sempre disponível pra ela. Um amor que tocasse violão, e que entendesse a sua sensibilidade, e que de preferência gostasse de Pink Floyd e tivesse barba.
Um ano passou, o ex amor voltou, e a achou linda, e a distribuia mil sorrisos. E que sorrisos! Mas ela só admirava, e guardava no coração somente os sorrisos, não aquele amor. 
O tempo ia passando e Gabriela conhecia vários caras que tocavam violão, outros que tinham barba e outros que curtiam Pink Floyd. Todos trouxeram encanto, mas nenhum trouxe amor. Tudo bem. Gabriela sabia que todo o seu amor distribuido voltaria um dia para ela, talvez sem violão ou barba, mas de preferência acompanhado de taças de vinho e beijos na testa. 

Julia


Julia não sabia amar. Sabia ser gentil, sabia ser meiga, sabia paquerar. Julia sabia ser charmosa, silenciosa, às vezes arrogante. Sabia não se importar, sabia não demonstrar. E não demonstrava. Vai ver era essa indiferença que os faziam querê-la. Aqueles olhos de um castanho curioso, um olhar autoexplicativo e que mesmo assim faziam qualquer um imaginar o que se passa por trás deles. Olhos que ela puxou do pai, com quem vivia em conflito, por que os seus olhos não a deixavam fugir dele. Os olhos do "velho" que supervisionavam a sua menina tinham a mesma malícia que viam os olhos da filha, que há muito tempo deixou de ser menina.
Julia nunca sofreu. Quando chorava, era só de raiva. Raiva desse mundo hipócrita que não a entendia e que censurava a sua rebeldia. Eu bem que gostaria de te dizer que Julia tinha um motivo para ser assim. Algo, mesmo que ruim, mas que pelo menos justificasse a sua raiva do mundo. Mas não. Julia não tinha motivo. Ela detestava o mundo simplesmente por ele existir, por ele ser como ele é.
Julia fazia sofrer. Às vezes bem que ela gostaria de ter algum sentimento. Mas o desejo era um de seus únicos sentimentos. Desejo de liberdade, de fogo, de rebelião.
De saia curta, salto alto, longos cabelos negros que contrastavam sua pele clara e unhas vermelhas, ela sabia satisfazer os seus desejos e dispensar o amor, como se este fosse um veneno repugnante.
Ela acreditava que amor não era nada além de um fenômeno psicoquímico, como uma droga produzida pelo corpo humano, e que o dela, por alguma deficiência, era incapaz de produzir.
Aqueles olhos castanhos que se destacavam em meio à maquiagem escura, eram uma arma sensual daquela garota que gostava da noite e não tinha medo do escuro. Era do escuro que ela gostava. Do misterioso, do curioso, do bizarro. Do desconhecido, do incorreto, do Rock. Da fumaça, do fogo, do álcool, do louco, do ilegal.
Julia sabia se calar e com o seu silêncio fazia enlouquecer e convencer qualquer um de suas falsas verdades.
E quando abria a boca expressava um espírito questionador e personalidade forte. E ela abria a boca para fumar o seu cigarro como se daquela tragada obtesse todo o seu fogo, e, naquela fumaça libertasse toda a sua angústia. Fumaça densa como a sua alma.
Julia não sabia amar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Como uma luva

Nos meus passeios por Paris com  uma amiga francesa, nos divertimos fazendo sessões de fotos, pegando o primeiro metrô que passar sem saber pra onde vai, e terminando o dia tomando chocolate quente em um café. Mas uma das nossas atividades favoritas é visitar brechós. Dos mais caros e chiques, que vamos só pra explorar e babar nos artigos vintage, aos mais baratos em que achamos preciosidades por preço de banana!
Numa dessas "aventuras", ela, que detesta a marca de roupas H&M por que todo mundo compra lá e se veste igual, achou um vestido vintage branco maravilhoso, estilo anos 50, bem digno de Marylin Monroe, adivinha de onde? H&M da Áustria! E eu, achei uma jaqueta jeans da Levi's por 10 euros, que me vestiu como uma luva. Eu, que sempre quis uma jaqueta jeans mas nunca achava uma lavagem que me agradasse. 
Isso me fez pensar em um filme que eu assistia quando era pequena, "Quatro amigas e um jeans viajante". No filme, um grupo de amigas de personalidades e tipos físicos completamente diferentes experimentam uma calça jeans que veste incrivelmente bem em todas elas. Quando essas amigas tem que se separar durante as férias, elas decidem compartilhar o jeans. Cada uma fica com ele durante uma semana e envia para a outra, acompanhado de uma carta que narra as histórias que viveu enquanto o vestia.
O que eu acho mais bacana desse negócio de brechó, além, é claro, de achar peças "valiosas" por um ótimo preço e fugir um pouco das modinhas ditadas pelas lojas de departamento, é pensar que cada uma daquelas roupas carrega uma história.
Quando a gente compra uma roupa novinha, é só um pedaço de pano esperando pra ter sua história escrita. E, aos poucos, a gente vai escrevendo nossa história enquanto a veste. Afinal, quem nunca teve uma "calcinha da sorte", ou aquela blusa que sabe-se lá por que toda vez que a veste acontece algo desagradável? E as roupas "herdadas" das nossas avós, mães, irmãs e primas? Quando pequena, eu só usava as roupas usadas da minha prima mais velha, e eu nem tinha mais vontade de sair pra comprar roupas pra mim, eu me divertia mesmo era reaproveitando as dela.  E acho que isso virou um hábito.
Pode ser só superstição, mas eu gosto de pensar que cada roupa nossa, além de nos ajudar a expressar um pouco da nossa personalidade e da nossa história, carrega um pouco da gente. E, quando a gente usa a roupa de um desconhecido, é algo mágico. É uma roupa que pra alguém é velha e sem graça, uma roupa que já viveu tantas histórias e que agora vai achar um outro alguém pra lhe dar novos casos. Por que ele/ela se desfez dessa roupa? Ficou pequena? Enjoou? Saiu de moda? Como se sentiu quando a comprou? Ficou feliz e entusiasmado, por ter se apaixonado por ela desde a primeira vez que a viu na vitrine, ou foi só uma roupa que foi "obrigado" a comprar pra uma ocasião especial e depois quis se desfazer dela pra dar espaço no guarda-roupa? Quantas histórias viveu enquanto a vestia? Quantas pessoas conheceu, quantos beijos deu, quantas vezes teve essa peça tirada do seu corpo por alguém? Quantas cervejas derramou nela, quantos sorrisos deu, quantas vezes se deixou encharcar pela chuva, e quantas lágrimas limpou com a barra da manga? 
O passado dessa roupa é um mistério, e agora ela começa a escrever uma nova história no meu corpo. E já começou bem.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

- Gab, não acha ruim comigo não, mas sabe, eu tava querendo muito uma sobrinha! ... me dá uma?
- Uai, compra!
- Mas como assim? Não posso comprar uma sobrinha, só você pode fazer uma!
- É só ir na loja!
- Como assim? Qual loja?
- Loja de guarda-chuva, uai! Lá tem um tanto de sombrinha, você pode escolher a que você quiser!


- Ô mãe, eu tô querendo mudar o meu cabelo, por que a minha aparência não tá refletindo a minha personalidade!
- Então muda a personalidade, por que a aparência tá muito boa.