domingo, 7 de outubro de 2012

Julia


Julia não sabia amar. Sabia ser gentil, sabia ser meiga, sabia paquerar. Julia sabia ser charmosa, silenciosa, às vezes arrogante. Sabia não se importar, sabia não demonstrar. E não demonstrava. Vai ver era essa indiferença que os faziam querê-la. Aqueles olhos de um castanho curioso, um olhar autoexplicativo e que mesmo assim faziam qualquer um imaginar o que se passa por trás deles. Olhos que ela puxou do pai, com quem vivia em conflito, por que os seus olhos não a deixavam fugir dele. Os olhos do "velho" que supervisionavam a sua menina tinham a mesma malícia que viam os olhos da filha, que há muito tempo deixou de ser menina.
Julia nunca sofreu. Quando chorava, era só de raiva. Raiva desse mundo hipócrita que não a entendia e que censurava a sua rebeldia. Eu bem que gostaria de te dizer que Julia tinha um motivo para ser assim. Algo, mesmo que ruim, mas que pelo menos justificasse a sua raiva do mundo. Mas não. Julia não tinha motivo. Ela detestava o mundo simplesmente por ele existir, por ele ser como ele é.
Julia fazia sofrer. Às vezes bem que ela gostaria de ter algum sentimento. Mas o desejo era um de seus únicos sentimentos. Desejo de liberdade, de fogo, de rebelião.
De saia curta, salto alto, longos cabelos negros que contrastavam sua pele clara e unhas vermelhas, ela sabia satisfazer os seus desejos e dispensar o amor, como se este fosse um veneno repugnante.
Ela acreditava que amor não era nada além de um fenômeno psicoquímico, como uma droga produzida pelo corpo humano, e que o dela, por alguma deficiência, era incapaz de produzir.
Aqueles olhos castanhos que se destacavam em meio à maquiagem escura, eram uma arma sensual daquela garota que gostava da noite e não tinha medo do escuro. Era do escuro que ela gostava. Do misterioso, do curioso, do bizarro. Do desconhecido, do incorreto, do Rock. Da fumaça, do fogo, do álcool, do louco, do ilegal.
Julia sabia se calar e com o seu silêncio fazia enlouquecer e convencer qualquer um de suas falsas verdades.
E quando abria a boca expressava um espírito questionador e personalidade forte. E ela abria a boca para fumar o seu cigarro como se daquela tragada obtesse todo o seu fogo, e, naquela fumaça libertasse toda a sua angústia. Fumaça densa como a sua alma.
Julia não sabia amar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Como uma luva

Nos meus passeios por Paris com  uma amiga francesa, nos divertimos fazendo sessões de fotos, pegando o primeiro metrô que passar sem saber pra onde vai, e terminando o dia tomando chocolate quente em um café. Mas uma das nossas atividades favoritas é visitar brechós. Dos mais caros e chiques, que vamos só pra explorar e babar nos artigos vintage, aos mais baratos em que achamos preciosidades por preço de banana!
Numa dessas "aventuras", ela, que detesta a marca de roupas H&M por que todo mundo compra lá e se veste igual, achou um vestido vintage branco maravilhoso, estilo anos 50, bem digno de Marylin Monroe, adivinha de onde? H&M da Áustria! E eu, achei uma jaqueta jeans da Levi's por 10 euros, que me vestiu como uma luva. Eu, que sempre quis uma jaqueta jeans mas nunca achava uma lavagem que me agradasse. 
Isso me fez pensar em um filme que eu assistia quando era pequena, "Quatro amigas e um jeans viajante". No filme, um grupo de amigas de personalidades e tipos físicos completamente diferentes experimentam uma calça jeans que veste incrivelmente bem em todas elas. Quando essas amigas tem que se separar durante as férias, elas decidem compartilhar o jeans. Cada uma fica com ele durante uma semana e envia para a outra, acompanhado de uma carta que narra as histórias que viveu enquanto o vestia.
O que eu acho mais bacana desse negócio de brechó, além, é claro, de achar peças "valiosas" por um ótimo preço e fugir um pouco das modinhas ditadas pelas lojas de departamento, é pensar que cada uma daquelas roupas carrega uma história.
Quando a gente compra uma roupa novinha, é só um pedaço de pano esperando pra ter sua história escrita. E, aos poucos, a gente vai escrevendo nossa história enquanto a veste. Afinal, quem nunca teve uma "calcinha da sorte", ou aquela blusa que sabe-se lá por que toda vez que a veste acontece algo desagradável? E as roupas "herdadas" das nossas avós, mães, irmãs e primas? Quando pequena, eu só usava as roupas usadas da minha prima mais velha, e eu nem tinha mais vontade de sair pra comprar roupas pra mim, eu me divertia mesmo era reaproveitando as dela.  E acho que isso virou um hábito.
Pode ser só superstição, mas eu gosto de pensar que cada roupa nossa, além de nos ajudar a expressar um pouco da nossa personalidade e da nossa história, carrega um pouco da gente. E, quando a gente usa a roupa de um desconhecido, é algo mágico. É uma roupa que pra alguém é velha e sem graça, uma roupa que já viveu tantas histórias e que agora vai achar um outro alguém pra lhe dar novos casos. Por que ele/ela se desfez dessa roupa? Ficou pequena? Enjoou? Saiu de moda? Como se sentiu quando a comprou? Ficou feliz e entusiasmado, por ter se apaixonado por ela desde a primeira vez que a viu na vitrine, ou foi só uma roupa que foi "obrigado" a comprar pra uma ocasião especial e depois quis se desfazer dela pra dar espaço no guarda-roupa? Quantas histórias viveu enquanto a vestia? Quantas pessoas conheceu, quantos beijos deu, quantas vezes teve essa peça tirada do seu corpo por alguém? Quantas cervejas derramou nela, quantos sorrisos deu, quantas vezes se deixou encharcar pela chuva, e quantas lágrimas limpou com a barra da manga? 
O passado dessa roupa é um mistério, e agora ela começa a escrever uma nova história no meu corpo. E já começou bem.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

- Gab, não acha ruim comigo não, mas sabe, eu tava querendo muito uma sobrinha! ... me dá uma?
- Uai, compra!
- Mas como assim? Não posso comprar uma sobrinha, só você pode fazer uma!
- É só ir na loja!
- Como assim? Qual loja?
- Loja de guarda-chuva, uai! Lá tem um tanto de sombrinha, você pode escolher a que você quiser!


- Ô mãe, eu tô querendo mudar o meu cabelo, por que a minha aparência não tá refletindo a minha personalidade!
- Então muda a personalidade, por que a aparência tá muito boa.

sábado, 28 de abril de 2012

Odaxelagnia


De vez em quando apareço com uma coisa incontrolável de morder a boca. A minha boca. Mordo as bochechas, os lábios, só não mordo a língua por que dói muito. Não. Sei lá por que não mordo a língua. Tenho que mante-la intacta pra saborear chocolate. Aliás, deveria era morder a língua por que falo demais. Deve ser isso. Só sei que enquanto eu tô mordendo dá uma dor, mas uma dor gostosa, não consigo parar. Mas aí no dia seguinte dói mais, fica inchado, parecendo que beijei muito no dia anterior - antes fosse! E arde, arde que eu não consigo nem comer o meu chocolate! 
Aí uma vez minha mãe me disse que leu sobre uma atleta que também se mordia a boca pra desviar um pouco o foco das intensas dores musculares causadas pelo esporte.Mas eu não sou atleta. Tô longe de ser. Não sinto dores musculares. Mas péra, o coração é um músculo, não é? É, sinto dor no coração. Eu devia era tá mordendo era a boca dele. Eu me mordo é de ciúmes.

Sentimento sem nome

Uma coisa que me deixa chateada mesmo é não saber o que eu tô sentindo. Que seja ciúmes, saudades, raiva ou até invejinha, mas que eu saiba o que é. E que esse sentimento, por pior que seja, seja muito ele mesmo. Ruim é não sentir nada ou sentir pouco, é estar vazio sem saber como se encher. É querer gritar sem ter voz. É querer bater sem ter força. É ser indiferente mesmo querendo se importar. É querer chorar, mas as lágrimas não saem. Por que juntar sentimento ruim com a frustração de não saber o que é ou de onde vem, aí já é demais. E desconhecendo os sintomas, a gente nunca vai saber a causa e muito menos a cura. E nesse caso, não tem médico pra ajudar. E de psicanalista, eu tenho birra.

domingo, 1 de abril de 2012

Viajando na Ambrosia

Teimosia. Parece nome de doce. "Quer provar minha Teimosia? Fiz agora mesmo, tá fresquinha". Deve ser por que a palavra lembra Ambrosia ou sei lá o que. Aliás, nem sei comé que é essa tal Ambrosia e nem do que é feita. Só sei que é um doce, mas deve ser daqueles estranhos, que só os velhos gostam. Ou então Ambrosia é que parece nome de doença. "Fui ao médico e ele disse que eu tô com Ambrosia". Credo. Talvez seja por que termine com ia. Eu ia mas não vou mais. Asia, teimosia, ambrosia, tia. Tia chata. Detesto uma tia minha. Que doença, que nada! Nem doce. Teimosia pra mim é tempero. É charme. Pode chamar o médico, tentar me levar pro hospital, mas eu não vou por que sou teimosa, mas, péra, é por isso que eu deveria ir. O mesmo motivo que tenho pra ir é o que me faz ficar. Teimosia sem cura. Ai, me deu uma vontade de comer doce...